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Crônicas de Viator · Parte 2: Quem Salva, Fere

outubro 20, 2026 · 5 min de leitura · por Felipera

O terceiro baque contra a madeira maciça ecoou como um trovão dentro do meu peito. Naquele instante, a bússola enlouquecida e o olhar metálico do meu tio drenaram toda a coragem do guerreiro estelar que eu julgava ser. O instinto primitivo de sobrevivência falou mais alto. Sem olhar para trás, corri pelo corredor estreito, alcancei o parapeito úmido e saltei pela janela em direção à noite fria de Brumanal, engolido pelas sombras do feudo enquanto a porta da sala finalmente cedia àquilo que o Mestre das Engrenagens havia invocado.

A fuga pela janela de Brumanal

O que quer que tenha entrado naquela casa, foi silenciado pela luz do amanhecer. O terror noturno dissolveu-se com o orvalho, e o ciclo implacável daquela vida dupla recomeçou.

No dia seguinte, sob a névoa dissipada da manhã, o Mestre das Engrenagens não era o necromante sombrio da noite anterior. Era apenas o meu tio, sóbrio e rústico, pronto para domar a terra. Fui cedo ajudá-lo na plantação e no trato das feras de lama do quintal. Foi lá, ao debruçar-me na beira do chiqueiro, que o equilíbrio falhou. Mergulhei de ponta-cabeça em direção à lama espessa, enquanto a vara de porcos avançava velozmente, grunhindo para atacar o intruso que lhes invadia o território.

Mas eu não cheguei a tocar o chão.

A gravidade foi interrompida no ar. O meu herói, com a precisão de um titã, agarrou-me pelos tornozelos, suspendendo-me a centímetros das presas sujas. Ele puxou-me de volta para a luz, rindo da minha cara pálida. Nesses momentos, a dualidade era esmagadora: o mesmo homem que me causava pânico absoluto quando a garrafa se esvaziava, era o gigante invencível que me salvava da morte durante o dia.

Suspenso a centímetros das presas

E havia muita luz no meio daquela escuridão. Dias inteiros de glória e poeira. A nossa fortaleza em Brumanal também era um paraíso onde eu me afundava na terra, rindo alto sob o sol, alimentado pelas guloseimas mágicas que a Matriarca tirava dos seus caldeirões. A vida era doce, até ao dia em que a engrenagem quebrou de vez.

O sol já tinha inclinado no horizonte e ele não regressara no horário de sempre. O silêncio na casa era espesso. A Matriarca e eu não precisávamos de palavras; nós sabíamos. A sombra do elixir do esquecimento já estava a pairar.

O elixir do esquecimento

Ele chegou ao fim da tarde, mas já não havia nele qualquer traço do homem que me segurara pelos pés. Estava completamente louco, consumido por uma fúria cega que não pertencia a este mundo. No meio do quintal que antes era o meu palco de brincadeiras, o pesadelo materializou-se: o filho levantou a mão contra a própria mãe. O herói desabou sobre a Matriarca com uma violência brutal.

O desespero tomou conta de mim. Eu era pequeno, frágil, mas o sangue ferveu. Corri contra ele, esmurrando as suas costas, batendo-lhe com toda a minha força infantil para o fazer parar. Mas os meus golpes eram como folhas a bater contra uma montanha de pedra. Não resultava em nada. Ele nem sentia. O cenário era lúgubre, escuro e manchado pela impotência absoluta de um menino que não conseguia proteger a sua rainha.

A ordem só foi restaurada quando as luzes vermelhas e azuis rasgaram a escuridão do feudo. Os guardiões da lei levaram o Mestre das Engrenagens, acorrentado, para as masmorras de pedra da cidade.

Luzes vermelhas e azuis rasgaram o feudo

Mas a maldição do sangue é uma teia complexa. O ciclo do trauma é um feitiço difícil de quebrar. Dias depois, foi a própria Matriarca — ainda com as marcas da fúria dele no corpo — que caminhou até à delegacia para o libertar da prisão. A lei dos homens perdoou, mas a alma da nossa casa já estava fraturada para sempre. A vida continuou, mas não ali.

Brumanal tornou-se insustentável, e a bússola do destino atirou-nos para Mair-In-Khel, a cidade cruzada por ferrovias e cercada por matas fechadas.

Mair-In-Khel, a cidade das ferrovias

Foi nesse novo território que a minha mente encontrou uma nova rota de fuga. Transformei as florestas de Mair-In-Khel no meu campo de batalha pessoal. A dor transformava-se em fantasia. Eu embrenhava-me na mata, com armaduras imaginárias e lança-mísseis acoplados aos braços, o guerreiro da selva caçando inimigos invisíveis enquanto tentava não pensar na fratura da minha família.

A Tecelã Distante, a minha mãe, emergia de Cineria em visitas esporádicas, trazendo consigo o cansaço da metrópole. Contudo, Mair-In-Khel não serviu apenas de palco para as minhas guerras imaginárias. O destino preparava um novo golpe.

Foi entre as árvores e os trilhos de ferro dessa cidade que a minha mãe cruzou o caminho com uma nova entidade. Alguém que não trazia a luz do sol, mas sim uma sombra espessa, e que rapidamente se transformaria no maior e mais pesado fardo da vida dela… e da minha.

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