Crônicas de Viator · Parte 1: Quem Cria, Invoca
A primeira fagulha da minha existência não acendeu no vale que me criaria, mas nas entranhas febris de Ferro-Manso, a Forja Vermelha. Contudo, foi no isolamento úmido e místico de Brumanal, o Feudo das Névoas, que Viator, o menino de mente irrequieta, realmente despertou para as magias e mistérios do mundo.
Fui deixado sob os cuidados de dois guardiões ancestrais, enquanto a minha mãe, a Tecelã Distante, desbravava o labirinto impiedoso de Cineria, a Grande Babilônia de Aço, para garantir o nosso sustento. Naquele quintal humilde de Brumanal, a minha imaginação não conhecia fronteiras. Eu não era apenas um garoto a brincar no pó de um feudo esquecido; na minha cabeça, corria o sangue de um guerreiro estelar prestes a despertar o seu cosmos. Eu tinha a precisão fria de um cirurgião de mentes, a rebeldia de quem enxergava o código oculto da realidade a escorrer pelas paredes de gesso, e a ambição de dissecar as leis invisíveis da matéria como um alquimista. Mas, acima de tudo, eu era o rei dos céus, o arquiteto de pipas que rasgava as nuvens, e o estrategista invicto nas trincheiras de terra onde as esferas de vidro colidiam.
O meu santuário era governado por duas forças absolutas. A primeira era a Matriarca. Uma verdadeira alquimista do fogo doméstico. Foi ela que me iniciou nas artes secretas da transmutação diária. Aos oito anos, eu já dominava o feitiço de transformar grãos duros numa montanha alva e fumegante. Antes dos dez, eu controlava o caldeirão negro do feijão, o sacrifício da caça e a magia doce, sedutora e perigosa do caramelo — aquela poção de açúcar que borbulhava como lava e solidificava como cristal. Ela ensinou-me que o verdadeiro poder começa pela capacidade de dominar o fogo e alimentar a matéria.
Mas o artesão do meu espírito, o meu maior herói terreno, era ele: o Mestre das Engrenagens.
Ele era um titã das coisas práticas. Tinha mãos rústicas, capazes de curar qualquer objeto ferido. Ensinou-me a domar a eletricidade rebelde das fiações, a devolver a vida às engrenagens mortas e a remendar as solas que nos separavam do chão cruel. Com ele, aprendi a arquitetura do voo: armações de bambu, pele de seda e a lâmina invisível do cerol, forjado a pó de vidro e resina. Ele ensinou-me a ser homem. A ter pulso firme, a rir da gravidade e a não recuar quando a linha esticava e o vento soprava contra.
Porém, toda a lenda antiga esconde uma maldição.
O meu ídolo carregava um fardo sombrio, uma entidade adormecida que acordava sempre que ele levava aos lábios o elixir do esquecimento. Bastava um gole daquele líquido amargo e inflamável para o artesão sorridente desaparecer, dando lugar a uma força imprevisível e caótica. O homem que consertava o mundo durante o dia, estilhaçava as estruturas invisíveis do meu pequeno universo emocional durante a noite. Os meus primeiros grandes traumas não vieram de monstros rastejantes, mas do abismo nas pupilas daquele que eu mais admirava.
Foi numa dessas noites densas, com a mente a mil e o coração a bater contra as costelas, que a ilusão da infância se quebrou.
O cheiro a álcool e a caramelo queimado pairava no ar pesado da sala. O Mestre das Engrenagens, completamente tomado pela sombra do elixir, virou-se para mim com um olhar que não era o dele. Estava vítreo, mas estranhamente lúcido. Em silêncio, ele não levantou a mão para me ensinar um ofício. Ele caminhou cambaleante até ao velho móvel de carvalho, abriu a gaveta que sempre nos fora estritamente proibida e retirou um objeto embrulhado num couro escuro.
Colocou-o sobre a mesa e olhou para a porta da rua, que tremia violentamente com a tempestade lá fora.
“Não é o vento, Viator,” sussurrou ele, com uma voz rouca e metálica que faria a minha percepção da realidade desmoronar para sempre. “Eles sempre vêm quando a chuva canta.”
Com um movimento brusco, ele puxou o couro. O que repousava sobre a madeira não era uma ferramenta, nem uma arma comum. Era uma bússola pesada e antiga, mas o mostrador não apontava para o Norte. No lugar dos pontos cardeais, havia símbolos astrológicos que eu nunca tinha visto, e a agulha tremia loucamente, cravando a sua ponta na direção exata da porta de entrada.
“A tua avó achou que esconder o nosso sangue te protegeria,” ele murmurou, enquanto a sombra voltava a engolir-lhe os olhos. “Mas tu tens a mente de um criador. E quem cria, invoca.”
Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, a porta de madeira maciça de Brumanal estremeceu com um baque ensurdecedor. Não era o vento. Alguém — ou algo — tinha acabado de bater.
Continua na Parte 2.